A CIVILIZAÇÃO EM XEQUE: UMA LEITURA DE LE SUPPLÉMENT AU VOYAGE DE BOUGAINVILLEDE DENIS DIDEROT

 

Edson Rosa da Silva – UFRJ/CNPq

 

 

No contexto deste congresso, cujo tema geral sugere uma revisão do processo histórico da colonização, tanto do Brasil quanto da América Latina, e, de uma forma mais ampla, do Terceiro Mundo em geral, esta comunicação tem por objetivo perguntar-se sobre o papel do escritor na análise crítica da sociedade e sobre a função da literatura como forma de conscientização diante da realidade do mundo e como forma de construção de um discurso literário/crítico que, por gozar do convívio com o mundo imaginário da criação, instaura um jogo entre verdade histórica e invenções da imaginação, conseguindo, assim, sempre esquivar-se a qualquer fixação de sentido e a qualquer atribuição de intencionalidade. Que leitura fazer da literatura? Privilegiar a autonomia da forma e do campo artístico? Ou nela buscar igualmente a presença de um momento específico da sociedade?

A produção literária do séc. XVIII francês permite-nos, e até mesmo exige de nós, uma leitura do contexto sócio-histórico em que se insere. O filósofo de então, longe de ser um teórico das idéias, é um homem prático que se interroga sobre o homem e as questões do seu tempo, donde o teor crítico de suas obras, questionadoras de regimes políticos, da religião e de hábitos sócio-culturais. Denis Diderot é um escritor engajado na vida do seu tempo, cuja dimensão, no que se refere aos problemas e inquirições da época, está refletida na Enciclopédia (1751-1765) por ele dirigida. Mas não é desse extenso texto que quero tratar. Gostaria de discorrer um pouco sobre um texto menos estudado que se intitula Supplément au Voyage de Bougainville. O texto faz alusão ao relato de Louis Antoine, conde de Bougainville – Voyage autour du monde (1771) – em que o viajante descreve a vida da ilha de Taiti, na Polinésia Francesa, como um lugar mítico, paradisíaco, comparável à ilha de Cítera, a terra de Afrodite, país idílico de um undo natural perfeito, que se tornou tema recorrente da literatura e da arte, como o belíssimo quadro de Watteau e o belíssimo poema de Baudelaire. Tanto o relato de Bougainville quanto o texto de Diderot põem em contraste dois mundos distintos: o lugar ideal sugerido pelo mundo natural e o mundo da experiência ocidental.

Se os leitores da época se haviam interessado pela descrição dos costumes de Taiti, pelas formas de pensar e de viver daquele povo, e, sobretudo, pelos detalhes picantes da vida sexual dos taitianos que a Viagem em torno do mundo de Bougainville permitia conhecer, Diderot, levado pela reflexão filosófica, interessara-se, antes, pela origem dos valores morais sobre os quais se funda a nossa civilização.

Supplément au voyage de Bougainville ou dialogue entre A. et B. é um texto curto, organizado sob forma de diálogo, como diz o próprio título. Divide-se em cinco partes, todas reunidas sob um subtítulo que diz “Sobre o inconveniente de ligar idéias morais a certas ações físicas que não as comportam”. As partes são: I –Julgamento da viagem de Bougainville; II – A despedida do velho; III – A conversa do padre com Orou; IV – Continuação da conversa do padre com o habitante de Taiti; e V – Continuação da conversa entre A e B.

Na primeira parte, A e B, dois europeus, discutem sobre o relato da viagem de Bougainville, tratam dos costumes dos habitantes das ilhas consideradas selvagens, e acabam por comentar a experiência de Aotourou, taitiano que Bougainville levou em seu navio para a Europa. Desse diálogo, ressaltam-se as diferenças entre os hábitos, a língua e a visão do mundo do habitante de Taiti e os do homem europeu. Aotourou, não conseguindo viver longe de sua terra natal, é mandado de volta a Taiti, sem que pudesse, conforme a conclusão de B., um dos interlocutores do diálogo, contar em sua língua a experiência de uma outra civilização e a de um outro universo conceitual tão distante das possibiliddes lingüísticas de seu idioma materno. E afirma que, se o conseguisse, seria tomado por louco, tão absurdo aquilo poderia parecer aos seus irmãos. Eis o texto:

 

A vida selvagem é tão simples e as nossas sociedades são máquinas tão complicadas ! O taitiano aproxima-se da origem do mundo, e o europeu de sua idade avançada. O intervalo que o separa de nós é maior que a distância entre o recém-nascido e o homem decrépito. Nada entende de nossos hábitos, de nossas leis, ou só vê neles entraves disfarçados de cem formas diversas que só sabem excitar a indignação e o desprezo de um ser cujo sentimento de liberdade é o mais profundo dos sentimentos. (S, 146).

 

O mundo de Taiti é tão estranho ao europeu que A, o interlocutor mais ingênuo, aquele que lança as perguntas para provocar a reflexão de B, chega a crer que Taiti é uma fábula, o que permite a seu interlocutor introduzir o Suplemento como prova da veracidade do relato de Bougainville.

A segunda parte do texto trata do discurso de um dos chefes da ilha aos viajantes europeus e aos habitantes da ilha, quando da partida dos estrangeiros. Esse discurso é marcado pela indignação de um homem que vê sua cultura invadida e ultrajada pelo estrangeiro que se lhe julga superior e que tenta moldá-la aos padrões de sua própria cultura. Aos taitianos que choram com a partida dos estrangeiros, diz o ancião:

 

Chorem, infelizes taitianos! Chorem; mas que seja pela chegada e não pela partida desses homens ambiciosos e maus: um dia vocês os conhecerão melhor. Um dia eles voltarão, segurando em uma mão esse pedaço de pau que estão vendo amarrado à cintura, e, na outra, o ferro que está pendurado ao lado, para acorrentá-los, estrangulá-los, ou sujeitá-los às suas extravagâncias e a seus vícios. Um dia vocês os servirão, tão corrompidos, vis e infelizes quanto eles. (S, 147)

 

O discurso do ancião, tão angustiado com o futuro sombrio que se vislumbrava para seu povo, descreve de forma objetiva e direta os malefícios dos processos de colonização que conhecemos, e dos quais somos um exemplo. Quanto às palavras que dirige a Bougainville, não são menos duras, pois o trata de bandido e o acusa de corromper os princípios naturais dos nativos e de trazer costumes contrários ao bem-estar e à felicidade: à propriedade comum o homem civilizado opõe a propriedade privada, o que incentiva as disputas e conduz à guerra:

 

Deixa-nos nossos costumes; são mais sábios e mais honestos do que os teus. Não queremos trocar o que chamas de nossa ignorância pelas tuas luzes inúteis. Tudo o que nos é necessário e bom, já o possuímos. Somos dignos de desprezo porque não soubemos criar necessidades supérfluas? Se temos fome, temos o que comer, se temos frio, temos o que vestir. (S, 148-9)

 

O discurso do velho torna-se cada vez mais veemente e amargo, e acusa o invasor, sem meias palavras, de ter trazido “a idéia de crime e o perigo das doenças”, o sentimento de remorso e de temor, de prazer escuso e vergonhoso. Acusa-o ainda de ter corrompido os nativos, introduzindo na ilha a prática do roubo e o derramamento de sangue. Enfim de ter matado o homem inocente, seduzindo-o “pelo brilho de seus pequenos ovos de serpente”.

Vejam bem que o texto de Diderot, além de confirmar as constatações das diferenças apontadas por Bougainville, introduz no quadro comparativo a idéia dos valores morais primitivos. Parece-me que o texto não prega a redução da vida do homem a seu estado natural numa espécie de condenação pura e simples da civilização. O homem do século XVIII já é capaz de entrever tudo aquilo que o progresso e a modernidade podem trazer à vida do homem. Parece-me, antes, que Diderot se coloca contra a instituição de princípios supostamente superiores, capazes de construir uma nova ordem que se viria impor à força sem levar em conta a liberdade e as diferenças. Ao ler outros textos do filósofo, constatamos que a idéia de liberdade está sempre no âmago de sua reflexão. Em Jacques le fataliste, romance moderno em pleno século XVIII, Jacques, o personagem principal age de forma totalmente livre, em absoluta oposição ao epíteto que o título do livro lhe dá. Aliás, a própria estrutura do romance coloca em cena essa liberdade, quando apela à participação do leitor na elaboração da trama narrativa: três finais são propostos e cabe ao leitor escolher o que melhor lhe parece. O próprio gênero dialogado, tão comum na obra de Diderot, leva a não atribuir a um único narrador a primazia da palavra, fazendo com que do ir e vir da pergunta e da resposta surja uma nova questão e uma nova idéia.

O que ainda é interessante observar é que A diz compreender então por que esse discurso não consta do relato de Bougainville, já que o teria compreendido perfeitamente. Segundo informação do texto, tal discurso teria sido escrito em espanhol por um dos nativos da ilha cuja família havia de há muito conservado o uso dessa língua. Ao acentuar esse detalhe, Diderot amplia o alcance crítico do Supplément e sugere o sentido possível para o próprio título: trata-se de um suplemento que vem revelar aquilo que não foi dito.

As partes III e IV constituem o momento mais importante do diálogo, pois colocam em cena a conversa entre o capelão da tripulação e o nativo Orou. A conversação se desenrola em torno da religião e das questões morais. Acolhido por Orou e sua família em sua cabana, o padre é convidado a participar da vida familiar. Os costumes, entretanto, são outros, e o padre pode e deve, por medida de cortesia e gratidão, dormir com as filhas do chefe da casa, e até mesmo com sua mulher. Após os ritos de hospitalidade, em que a mulher e as filhas de Orou despiram o hóspede, lavaram-lhe o rosto, as mãos e os pés e lhe serviram uma refeição “sã e frugal”, Orou lhe diz:

 

Jantaste, és jovem e tens saúde. Se dormires só, dormirás mal; o homem precisa ter à noite uma companheira a seu lado. Aqui tens a minha mulher e minhas filhas: escolhe a que mais te convém; mas, se quiseres me agradar, darás preferência à minha filha mais jovem que ainda não tem filho algum. (S, 153)

 

Ao que o padre respondeu “que sua religião, seu estado, seus bons costumes e a honestidade não lhe permitiam aceitar tal oferta” (S, 153), o que vai desencadear toda uma longa discussão sobre a religião, o estado religioso e os costumes nativos e ocidentais. Orou diz:

 

Não sei o que é isto que chamas de religião; mas só posso julgá-la mal, uma vez que te impede de gozar de um prazer inocente, ao qual, a natureza, nossa soberana mestra, nos convida a todos. (S, 153)

 

Contrapondo seus argumentos de pureza e de honestidade, repetindo a cada instante:: “Mas minha religião! O meu estado!”, o capelão não consegue fazer entender a Orou o que tais conceitos podem significar e que importância podem ter diante da mãe natureza. Por outro lado, a filha mais jovem, marcada pela desonra de ainda não ser mãe, lança-se a seus pés, beija-lhe os joelhos, exclamando: “Não aflijas o meu pai, não aflijas a minha mãe, não me aflijas”. A cena, se é trágica e embaraçosa para o padre, é cômica para nós. Diderot, nitidamente do lado dos nativos, torna o padre ridículo, fazendo-o contorcer-se, agitar-se, levantar as mãos e os olhos para os céus, revelando uma veia cômica crítica presente em outros textos seus. Assim narra Diderot o episódio da primeira noite do padre com Thia, a filha mais nova de Orou:

 

O ingênuo capelão conta que [Thia] lhe apertava as mãos, dirigia-lhe olhares tão expressivos e tão tocantes e que chorava; seu pai sua mãe e suas irmãs se afastaram; conta que ficou só com ela, e que dizendo: Mas minha religião, meu estado, achava-se na manhã seguinte deitado ao lado da jovem que o cobria de carícias, e que convidava o pai, a mãe e as irmãs, quando se aproximaram da cama, a juntar sua gratidão à dela. (S, 155)

 

A questão religiosa, embora cômica para o leitor, é apresentada como algo que se impõe à vida do padre, causando-lhe sofrimento. A pergunta de Orou, logo depois da farta refeição que o esforço noturno do capelão exigia, dá a dimensão dessa obsessão: “Vejo que minha filha está contente contigo e te agradeço por isso. Mas, poderias me dizer o que quer dizer a palavra religião que tantas vezes pronunciaste, e com tamanha dor?” (S, 155). Segue-se uma longa conversa em que Orou se informa sobre os hábitos ocidentais do casamento único, sobre as leis estabelecidas por um suposto criador, onipresente e invisível. O taitiano não crê que essas leis sejam respeitadas, que as mulheres casadas durmam com um só homem, o que deixa o padre confuso e embaraçado na medida em que tem que concordar com Orou – momento em que mais uma vez o ocidental versado nas leis e no conhecimento das religiões se vê vencido no debate pelo homem não civilizado. E o texto continua:

 

O bom capelão relata que passou o resto do dia a percorrer a ilha, a visitar as cabanas e que, à noite, depois do jantar, tendo o pai e a mãe suplicado que dormisse com a segunda filha, Palli apresentou-se nua como sua irmã, e que ele exclamou várias vezes durante a noite: Mas minha religião! Meu estado!, e que na terceira noite estivera agitado pelos mesmos remorsos com Asto, a filha mais velha, e que concedera a quarta noite, por questão de honestidade, à mulher do seu anfitrião. (S, 177).

 

 A conclusão do capelão e a de Diderot são favoráveis aos costumes de Taiti. E Diderot, ridicularizando a figura do padre e, portanto, a própria religião, joga com o duplo sentido das palavras do religioso, convencido dos méritos da vida natural ou dos bem-feitos da hospitalidade. Assim se fecha o episódio da “conversão” do religioso:

 

Aqui o bom capelão lamenta a brevidade de sua visita a Taiti, e a dificuldade de conhecer melhor os hábitos de um povo [tão] sábio. [...] Termina por garantir que os taitianos estarão sempre presentes em sua memória; que havia sido tentado a jogar suas roupas no navio e a passar o resto dos seus dias entre eles, e que teme mesmo arrepender-se mais de uma vez de não tê-lo feito. (S, 177)

 

A metáfora do abandono possível da vida religiosa, aqui representada no gesto de lançar as vestes no navio (lembrar o provérbio francês: “jeter le froc aux orties”) dá a justa medida da vitória da liberdade sobre a opressão das leis, bem como da superioridade dos hábitos naturais e sinceros sobre a ordem artificial e hipócrita.

Por que trazer aqui esse texto do século XVIII neste momento de revisão do processo de colonização e de aculturação do Brasil e das Américas? Seria função da literatura e das artes refletir e repensar momentos fortes, críticos e polêmicos da histórica e da sociedade? O fato é que o intelectual e o artista sempre estiveram, de forma certa ou errada, engajados em lutas sociais. E suas obras, apesar de sua especificidade, deixam sempre entrever um olhar, de esguelha por vezes, parcial com certeza, de direita ou de esquerda, mas sempre atento e perspicaz sobre o mundo em que vive. Queria com Diderot, hoje e aqui, não criticar a história do passado ou combater o já mais que combatido. Mas refletir sobre nossa função de professores, críticos e escritores no mundo em que vivemos. Se não possuímos riquezas ou armas desastrosas, possuímos talvez uma arma eficaz que sabemos manejar com competência e elegância: a palavra, a perigosa palavra. Não é à toa e sem razão que os regimes ditatoriais caçam artistas e intelectuais, que exilam músicos e professores, que calam, de forma violenta, aqueles cujas vozes são sonoras.

Que Diderot se tenha querido referir a tal ou tal situação política, colocar ou não em xeque a civilização européia e a ambição expansionista de muitos estados europeus, nada saberia afirmar. O que sei é que, hic et nunc, Bahia, Salvador, ano 2000, quis e quero fazer desse belíssimo texto literário de Diderot uma forma de protesto contra o que se fez contra a América Latina, e o que a própria América Latina ainda faz contra si mesma, devastando terras, dizimando índios, subvencionando a fome.

Queria relembrar, antes de terminar, a mais bela definição da função do artista no meu entender. Trata-se da frase do escritor André Malraux, escritor engajado na luta contra o fascismo, voluntário da Guerra Civil Espanhola, combatente e revolucionário, que diz no prefácio de um de seus livros, Le Temps du mépris (1935): “pode-se querer que o sentido da palavra arte seja dar aos homens consciência da dignidade que ignoram em si mesmo”. Essa é a função de nossa voz sonora. Sem essa voz não há consciência. Sem consciência não há luta.